“Sou o ontem da desquadratura do mundo. Surgi a partir da matéria não formada. Os átomos de todos os deuses y deusas vibram em mim. Essa é a última vez que te lembro: seja imensa.”
A frase, um pequeno conto ou oração, não temos certeza, acompanha uma das fotografias de abigail Campos Leal exposta na mostra coletiva Um Século de Agora, em cartaz até o dia 2/4 no Itaú Cultural. O nome da série, nós estávamos esperando por vocês, assim mesmo em letras minúsculas, está estampada no painel que acolhe as cinco fotografias, ziguezagueando sobre as imagens e seus respectivos contos ou preces.
É ali, no piso 1 do edifício do IC na avenida Paulista, que abigail Campos Leal realiza neste sábado, 18/3, às 17h15, uma ativação de sua obra. A performance consiste em um conjunto de imagens sônicas, criadas com pedais de efeito ligados ao microfone, com a participação do DJ e músico Joseph Rodriguez e da artista cênica e educadora Ph Verissimo.
nós estávamos esperando por vocês: ritual de abertura da carcaça tem como pano de fundo estudo sobre os saberes ancestrais Yorubá, em particular o candomblé, e sobre “o povo de Kemet – nome dado pelos habitantes originários do território, que significa Terra Preta ou Terra dos Pretos, antes da invasão e rebatismo por parte dos gregos –, em especial o Sistema de Mistérios, cosmogonia ancestral do povo de Kemet, condensado no chamado Livro dos Mortos do Antigo Egito, tendo como foco a dimensão sônica e coreográfica dessas tradições”, informa o texto de divulgação.
A frase transcrita acima, que acompanha a imagem de um pequeno boneco com búzios no lugar da cabeça colocado delicadamente sobre uma pedra à beira de um rio, faz pensar num ritual de empoderamento e de fé, talvez semelhante ao que os visitantes vão vivenciar no sábado.
nós estávamos esperando por vocês foi realizada durante a crise sanitária da Covid-19 e, ainda de acordo com o material distribuído à imprensa, a obra é composta pela criação de paramentos ancestrais, a partir da fusão de elementos da infância da artista, como brinquedos, action figures e bonecas, e da sua ancestralidade preta e indígena, a exemplo de búzios, palo santo e estrelas-do-mar, fotografados, de acordo com abigail Campos Leal, “em uma paisagem de significação político-espiritual que aponta para a possibilidade de um espaço-tempo que não é mais regido pela ordenação colonial do mundo”.
“São cinco ancestrais, feitas em uma paisagem ancestral, em um cenário preparado com intenção e mistério, de forma a refletir a grandiosidade desses seres que eu pari, mas que, de alguma forma, também me pariram”, explica. “Cada uma das fotografias vem acompanhada de uma mensagem que elas emanaram e que senti vibrando”, continua. “São lembretes terrosos, aquáticos, esfumaçados, verdejantes, opacos, oblíquos, misteriosos e infinitos, que chegam até mim através da memória preta indígena que brota da minha carcaça, mas também do mundo.”
SERVIÇO
nós estávamos esperando por vocês: ritual de abertura da carcaça
Com abigail Campos Leal, Joseph Rodriguez e Ph Veríssimo
Dia 18/3, sábado, às 17h15
Duração: 30 minutos
Itaú Cultural [entrada gratuita]