icon-plus
Espaço Sideral (2023), de Leka Mendes [Foto: cortesia da artista e Marli Matsumoto Arte Contemporânea]
Postado em 13/07/2023 - 6:26
Seres aquáticos em paisagens siderais
Curadora da exposição Ao Entrar nas Profundezas, Pense nas Alturas, de Leka Mendes, reflete sobre o mundo pós-transmissão na obra da artista; mostra termina amanhã, 15/7

Recentemente, ao escrever um texto, retomei Mackenzie Wark em O Capital Está Morto. O livro começa com um engraçado relato: Wark conta que passou horas se dedicando a responder um teste de internet. O tema do teste: ‘se você fosse uma diva do punk rock, qual você seria?’. Wark, assim como eu, no começo do teste já tinha sua resposta: sua diva era Patti Smith. A autora nos conta que o questionário prendeu sua atenção por muito tempo – ela tentava manipular as respostas para garantir que não se surpreenderia com o resultado. Além disso, o teste forneceu ‘conteúdo’ que ela pudesse postar em suas redes sociais e interagir com pessoas.

Nesta pequena anedota, temos elementos fundamentais para a autora traçar uma crítica sobre a denominada era da pós-transmissão: as divas do punk rock nunca foram importantes para os desenvolvedores do teste; mas o engajamento e a possibilidade de capturar informações pessoais o são. O celebrado mundo tecnológico, no qual inteligências artificiais são nossas assistentes pessoais, se assemelha a uma distopia do controle das nossas subjetividades humanas.

Os trabalhos de Leka Mendes [artista que provavelmente teria como diva a Kim Gordon] partem de materiais e de elementos que são consequência deste mundo da pós-transmissão – marcado pela mudança constante, no qual o imperativo da transparência convive com a nebulosidade do futuro. A artista coleta fragmentos produzidos pela atividade humana nesta era: resíduos urbano-industrial-tecnológicos são seus achados, concentrando-se no potencial de criação de especulação que guardam todos os objetos do mundo. Para Leka, não há arranjo ou imagem predeterminados, mas uma escuta atenta às formas e às narrativas encontradas pelo meio do caminho. Ocupa-se com aquilo que é mais que humano [James Bridle] e com a memória que está nas plantas, pedras e nos objetos que nos cercam. Criam-se, nos trabalhos da artista, ecologias do nosso entorno.

Nestes ecossistemas, o conceito de relação é fundamental, pois nele é que se inscrevem a unicidade dos elementos. Ao ser amarrado a uma pedra, um pedaço de concreto traz, em si mesmo, sua memória-matéria. Ao ser concreto-fio-pedra, ele se transforma. Quais as narrativas que poderiam vir a existir desta relação? Leka coloca luz naquilo que, talvez, pudéssemos chamar de inteligência dos objetos e seres que nos cercam.

OS TRABALHOS DE LEKA MENDES PARTEM DE MATERIAIS E DE ELEMENTOS QUE SÃO CONSEQUÊNCIA DESTE MUNDO DA PÓS-TRANSMISSÃO, MARCADO PELA MUDANÇA CONSTANTE, NO QUAL O IMPERATIVO DA TRANSPARÊNCIA CONVIVE COM A NEBULOSIDADE DO FUTURO

Ao identificarmos esta habilidade ou memória dos seres não humanos como inteligência, estaríamos diante de uma mudança de paradigma: o que significaria, por exemplo, construir inteligências artificiais e outras máquinas que seriam mais parecidas com fungos, pedras ou com outros seres que não o humano? Teríamos que nos preocupar com os dados gerados na era da pós-transmissão, ou com driblar os algoritmos de um teste que quer que sejamos outra diva punk rock que não a nossa favorita? Leka Mendes nos convida a olhar de novo para o entorno.

Observemos em detalhes e em escala. Ao Entrar nas Profundezas, Pense nas Alturas é o título da primeira mostra individual da artista na Marli Matsumoto Arte Contemporânea. A frase é retirada de seu contexto inicial: Alexander von Humboldt, importante pesquisador naturalista que viveu entre os séculos 18 e 19 e considerado fundador da ciência geográfica, é quem a enuncia. Os trabalhos reunidos provocam-nos a pensar na contiguidade entre o céu e a terra, tema o qual a artista tem se dedicado nos últimos anos, e que pode ser entendido como uma espécie de síntese do Antropoceno – no qual a ‘queda do céu’, anunciada por David Kopenawa e por outras cosmogonias indígenas, faz-se iminente. Em outros trabalhos, somos levados a fabular narrativas de origem dos planetas e a olhar para elementos da paisagem celeste, que nos relembram a impossibilidade de capturar o presente no tempo astrofísico. Serão mesmo estrelas que estão representadas ou uma constelação de componentes eletrônicos vistos em outra escala?

Céu e Pedra (2023), de Leka Mendes [Foto: cortesia da artista e Marli Matsumoto Arte Contemporânea]

A mostra organiza-se como uma instalação no espaço da galeria: na primeira sala, propõe-se um jogo entre peso e leveza; assistimos a dança entre satélites e outros elementos que pairam lentamente pelo espaço. Na segunda sala, chegamos na escala das nuvens: Leka cria um nevoeiro com materiais encontrados, justapostos e ressignificados. Diante da dificuldade de ver, somos lembrados dos limites da excessiva nitidez com que o mundo se apresenta à nossa percepção. Convida-se a mirar a opacidade e a observar o céu e o meio ambiente urbano que nos cerca. Na última sala da instalação, aterramos diante de paisagens criadas pela justaposição de camadas de lona colorida. Haverá, para nós humanos, um único horizonte de futuro tecnológico possível?

Transitamos entre salas acompanhadas por um elemento escultórico que nos lembra a cauda de uma baleia. Habitando a superfície terrestre, a escultura é feita de azulejos quebrados encontrados por Leka: o ser aquático representado cohabita as paisagens de espaços siderais distantes. A baleia é uma imagem síntese para o título da exposição. Ao Entrar nas Profundezas, Pense nas Alturas não é uma exposição fechada em si. Apesar da sugestão de trajetória entre as salas, que se explicita pela disposição das salas no espaço expositivo, a maior parte dos elementos e obras contém certa ambiguidade entre sua história enquanto corpo físico-material e seu potencial de representar algo. Nesta ambiguidade é que habita a ficção. Recorrer à ficção significa, criar “artes de viver em um mundo danificado” [Anna Tsing], conceber outras formas de estar presente e criar outros futuros. Leka Mendes é uma artistas que habita e produz a partir dos escangalhos do mundo na era da pós-transmissão, e que ficciona a partir deles.