Este ano tive a oportunidade de participar da 27º Mostra de Tiradentes, um dos principais eventos de cinema do país, com o filme Onde Está Mymye Mastroiagnne?, um doc-ficção experimental sobre um fato na vida real e virtual de uma moradora do bairro do Pina, Recife, e do metaverso do Second Life.
Com o tema As Formas do Tempo, o festival trouxe uma seleção de mais de 145 filmes, entre curtas e longas, de uma sempre efervescente produção contemporânea brasileira. Em seis dias nos quais estive no evento (de um total de nove), pude assistir, debater e conversar com realizadoras e realizadores, curadoras e curadores, jornalistas, e também integrantes do júri.

Nesta edição, a curadoria evidenciou a diversidade de debates ao propor exibições de filmes que tratassem de olhares, inclusive, divergentes, numa mesma sessão. Essa aposta foi sentida pelo público, e também pelos realizadores.
Até que ponto vale a pena a contradição?
Podemos refletir sobre isso com a sessão em que exibimos Onde Está Mymye Mastroiagnne? (PE/CE). O filme traz como personagem principal Josivany Soares, uma mulher trans na faixa dos 50 anos, personalidade no seu bairro. Se apresentava em locais clássicos de uma cena LGBTQIA+ dos anos 1980 em Recife, como no bar Kibe Lanches (filmografado pela Surto e Deslumbramento), e hoje em dia – na verdade há 17 anos – se apresenta como stripper e atua como hostess de clubes adultos no jogo virtual Second Life.
A mesma sessão exibiu também o filme Cassino (RS), de Gianluca Cozza. Este filme pode exemplificar alguns pontos citados pela curadoria: a presença da masculinidade cis como tema, a escolha por filmes discursivamente divergentes numa mesma sessão. E vimos falas assumidamente machistas numa narrativa que parece se encerrar ali, sem proposição no discurso para além daquela realidade.
Há uma masculinidade compulsória e violenta (na verbalidade, na abordagem), que cria distâncias para o afeto e a sensibilidade, e que é evidenciada nessa e em outras produções. Precisamos falar sobre isso. Mas como falar sobre isso é uma questão.
Enquanto realizadora negra, passo por dilema semelhante. Como falar de racismo sem reforçar estereótipos, sem exaltar violência, sem reproduzir uma semiótica cansada que, no subconsciente, muitas vezes opera para uma manutenção do problema?
Não queremos mais falar de violência (com violência)
Em entrevista à Folha de S.Paulo, com realizadores dos filmes Pirenopolynda (GO/DR/CE), de Izzi Vitório, Tita Maravilha e Bruno Victor, e de Se Eu Tô Aqui É Por Mistério (RJ), de Clari Ribeiro, ambos curtas de diretores trans exibidos nesta edição, é possível ter um panorama de que tipo de narrativa está sendo desenvolvida a partir de outras perspectivas que não a da cisgeneridade. São propostas que trazem uma complexidade estética, profundidade de pesquisa, sensibilidade com a imagem e com o texto (visual ou verbal) que torna impossível reduzir tais produções a “cinema queer” ou filme sobre gênero.
Protagonismo na tela não é o mesmo que protagonismo na concepção.
Nesse sentido, o filme Samuel foi Trabalhar (AL), de Janderson Felipe e Lucas Litrento, é um acerto impressionante. Abordando o tempo do trabalho, da exploração da cidade, da corrida capitalista em troca de um salário mínimo ou uma passagem de ônibus, o filme, com o protagonista negro, fala de masculinidade cisgênero e periferia com propriedade, sagacidade e bom humor. Samuel é um jovem lutando para ter sua carteira assinada num emprego humilhante e exploratório. O tom do filme surpreende pela coerência, a ponto de brincar com essa realidade com tesão, leveza e seriedade.

Quem está falando?
Nesta 27ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes foi possível observar ainda um desenvolvimento de narrativas “híbridas”, que misturam, confundem e dilatam as categorias (gêneros) do documentário e da ficção.
Por meu próprio filme se tratar também de um trânsito por entre essas linguagens, é muito instigante ver essas produções desenvolvidas por realizadores tão diferentes.
Aqui vou destacar duas produções paradigmáticas em visualidade, narrativa e contexto. Esses três pontos juntos, e nunca separados, parecem falar de uma potencialidade insubstituível presente no cinema.
O primeiro deles é Onde Judas Roubou as Botas (MG), do Coletivo Pisquinhos, curta-metragem que aborda a tradição do Boi Balaio, folguedo presente na cidade de Hematita, interior de Minas Gerais, a partir desse grupo de teatro formado por jovens entre 15 e 23 anos. Com 11 meninas e um menino como integrantes, o coletivo reinterpreta a tradição que, embebida em catolicismo e realizada no sábado de aleluia, traz em uma de suas brincadeiras a investida (e consequente represália) para se aproximar das “mulherzinhas”, personagens geralmente compostas por homens vestidos de mulheres.
Em meio a realidades historicamente machistas, o coletivo subverte papéis, evidencia a presença e importância de uma travesti no papel da “mulherzinha”, e não de um homem vestido de mulher, e reivindica a brincadeira por meio da brincadeira: o fazer do filme como processo documentado, a construção não como labor, mas também como prazer, diversão. E a diversão a partir desse olhar traz no filme uma camada revolucionária, um desejo de implosão organizada e inteligente.

Desenvolvido com a comunidade Mbyá-Guarani de território no sul do Brasil e divisa com a Argentina durante mais de 5 anos, o filme é uma interpretação metalinguística de uma história contada (e vivida) pelos seus mais velhos. Metalinguística pois os próprios personagens também são atores e realizadores, e ao longo do filme fazem decisões sobre como o filme será filmado, o que ele irá contar, como e com quem, de dentro e a partir da própria comunidade.
Há, no filme, uma radicalidade na honestidade de contar uma história real ficcionalmente, com uma sensibilidade que fala sobre tempo: de gerações, de respiro, de força, de escuta, de vida e até de morte.
Enquanto outras produções com intenções semelhantes acertam apenas num olhar antropológico, fetichista, violento em suas sutilezas e enquadramentos; A Transformação de Canuto é muito feliz naquilo que tem a ensinar ao próprio cinema, que ainda respira ares tão coloniais.