Laryssa Machada >>>
Como pensar uma crítica da arte que seja radical no âmbito de propor novos SISTEMAS [ético-artístico-cosmológicos], de fato, e, neste caminho, como construir mediações que atinjam as estruturas de poder que perpetuam os pontos que desejamos movimentar. Penso sobre a inflamação do desejo de >transformar um ambiente< que é construído inicialmente por impérios e “eruditismos”, em que determinada camada determina o que deve ou não circular, o que deve ou não se perpetuar através dos séculos. Quem possui o poder de documentar, de preservar tais arquivos, de ESTAR nesses nesses lugares de decisão ou que consegue criar pequenas rachaduras, que seja. Percebo, pelas nossas discussões, que falar sobre o “sistema das artes” é, diretamente, falar sobre a estratificação de poder. Isso, se nos balizarmos em valores de mercado e de poder de difusão. Dessa forma, até onde pode chegar um incômodo e como ele pode se concretizar em alterações das estruturas? Penso que certas coisas são atingidas por pedras jogadas ontem. Estamos, hoje, discutindo as negociações com esse sistema, porque outras já discutiram e nos contagiaram, como faíscas. E na insistência de escancarar repetições, vozes novas se fazem ouvir. Muitas vezes a flecha pode chegar, de fato, a um só lugar. Mas muitas e muitos a viram no céu. E acenderam novas histórias.
14.05.2024
Melissa Baltazar / Vozes Agudas >>>

Bruna Fernanda e Sophia Faustino / Vozes Agudas >>>
Divagações/ pensamentos / escrita livre e caminhando..sobre os encontros na Residência Celeste e em discussão sobre essas sensações com o Coletivo Vozes Agudas
Como dividir medos e ansiedades que envolvem a construção de pensamento/conhecimento e a importância de grupos, coletivos, residências como acolhimento e lugar de troca/reflexão? Uma residência como um lugar novo para muitas residentes aqui presentes. A residência também sendo construída conforme caminhamos, algumas com mais facilidade/dificuldade de fala, escrita, construção/associação de pensamentos a partir de tantas novas informações. Estado de ebulição como estado desejante, sem deixar que a energia escoe inteiramente para novas possibilidades de ações e articulações (Como manter esse fogo aceso?). Medo do erro (Vamos errar, até para acertar.as o medo está ali). Silêncio (construção estrutural histórica presente em raça, classe e gênero: como construir/reconstruir/destruir?). Tempo de construir as relações de afetos e proximidades entre as integrantes do grupo por meio das novas perspectivas (tempo de decantação das coisas). Destruição de repetições e ciclos de violência através da novas tentativas e experimentos para construção em movimento de novos territórios. O tempo de observação desses resultados para ver o que funciona e quais serão as novas tentativas e experimentos (movimento). Como repensar e evitar lugares dados, garantidos? (Às vezes a primeira resposta que vem à cabeça não é a resposta.) A importância do tempo x as urgência das mudanças, como lidar? As rotas de fugas para dispositivos sistêmicos atuantes buscando novos meios de circulação. Interseccionalidade.

Medo. “Medo como impossibilidade de ação’’ (comentário em troca com Elaine Fontana). Construção de coragem passa pelo fantasma do medo e decantação das elaborações em grupo. Ouvir outres para elaborar essas novas possibilidades. A curiosidade, a escuta e o desejo de aprender como força motriz para a ação, para mudanças e construção de pensamento em conjunto na residência. Agradecimento pela oportunidade de escuta e também de fala. Agradecimento também como reconhecimento e cuidado.
Como dado adicional ao texto sobre a escuta, segue link da entrevista da Grada Kilomba no Roda Viva (15/05/2024) passagens 1:04 a 1:07 / 1:19 a 1:22 e 1:25 a 1:28
https://www.youtube.com/live/up-F2Pzf0LY?si=28k7aU4jQdPfpzCf
João Victor Guimarães >>>
O encontro com Elaine Fontana certamente foi um momento de intensa efervescência nesta edição da Residência Celeste. Uma contradição corajosa em muitos níveis: ela trabalhou para a Bienal de São Paulo, ora coordenando o educativo, ora prestando consultoria para a mediação. Eu, crítico fervoroso, escrevi e publiquei um ensaio no qual repercuti a carta aberta publicada pela equipe de mediação da Fundação Bienal de São Paulo. Ao longo de todo o encontro, as questões raciais foram discutidas, bem como questões relacionadas à luta de classes de forma sempre instigante, embora às vezes contraditória e confusa. Dentre as questões que balizaram nosso encontro, destaco:
1- a importância da curadoria para as instruções se manterem “interessantes” para o público (ou para um determinado público). Vide a entrevista com Andrea Pinheiro, diretora da Fundação Bienal de São Paulo, na qual afirma que “o curador é a verdadeira alma da Bienal”. Será? E o capital? https://www.estadao.com.br/amp/economia/curador-verdadeira-alma-bienal-presidente/
2 – a presença de pessoas com corpos “dissidentes” em cargos de “médio poder” dentro de instituições culturais.
3 – a ausência de luta de classes no mercado da arte. Afinal, nesse sistema, só há uma classe: rica.
Diante desses problemas sobre os quais não vou discutir aqui e agora, ficam muitas questões: as instituições não estariam se protegendo quando inserem corpos “dissidentes”, “diversos” e “racializados” em cargos de poder? Como a crítica aponta falhas institucionais sem afetar tais corpos? É possível? É esse o papel da crítica? Como residir no conhecimento acerca das estruturas institucionais e mesmo assim propor um radicalismo que as supere? O que é domesticação, diálogo e covardia? Quem inventou a coragem e a culpa? Quem determina o erro de quem? Quando se critica uma instituição, a quem se constrange? Fazer barulho é tão distante de ser eficaz, resolutivo e assertivo? Se sim, pra quem? O que é diálogo, domesticação e covardia? A crítica está para convencer a instituição criticada ou para riscar o fósforo do seu (e do nosso) incêndio? O que é diálogo e domesticação? Será que a instituição não constrange antes da crítica fazê-lo? Afinal, manobras e protocolos também são discursos estratégicos, não? O que é covardia?
