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Corrente, série Limpeza e Saúde Urbana: Instruções para a Permeabilização, São Paulo, 2019-2020, videoperformance de Genietta Varsi (Lima, Peru)
Postado em 01/10/2025 - 11:44
Sobre viver junto
Com foco em amefricanidades, Conferência Internacional de Residências Artísticas é sediada por primeira vez na América do Sul e expõe a metodologia circular dessas instituições

Universalidade. Compartilhamento. Generosidade. Suporte. Rede. Eis cinco palavras-chaves que circularam de boca em boca nas palestras de abertura da Conferência Anual Res Artis 2025 – Outras Primaveras: Florações do Sul Global, que aconteceu de 18 a 23/9, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. São palavras que giram em torno de si mesmas, como cobra que morde o próprio rabo, gerando um circuito. Só alcança o universal quem compartilha ideias. Interlocuções de ideias dependem de generosidade de ambas as partes. Ideias florescem quando sistemas de suporte criam ambientes favoráveis para isso acontecer. Fluxos de pensamentos de uma cabeça para outra tecem redes. Esta é a engrenagem, a metodologia circular que faz mover as residências artísticas.

Liberdade é outra palavra incontornável. Esta, quem lança é Marcos Moraes, coordenador da Residência Artística FAAP-Paris/São Paulo, anfitrião da 33ª edição do encontro que acontece, como ele frisa, pela primeira vez na América do Sul. “É uma possibilidade de olhar para articulações de regiões que são tão fragilmente apoiadas”, disse Moraes na abertura. “É quase uma utopia de liberdade, em um momento em que passamos por questões diplomáticas sérias, por guerras, que definitivamente não deveriam acontecer em 2025”. A fim de amplificar a escuta de vozes não hegemônicas, vozes pouco audíveis e realidades pouco visíveis, o comitê diretivo da conferência, formado por Moraes, Ana Farinha, Elena Germani, Luana Fortes, Marcelo de Assis e Thiago Honório, coordenou um programa com foco em Sul Global.

Tomando como guia o conceito de amefricanidade, cunhado pela escritora brasileira Lélia González, o programa enfatizou as presenças indígena e africana na cena artística e social do Brasil e da América Latina hoje. Em palestra descontraída, mas contundente e muito bem articulada, a key speaker da conferência, Moara Tupinambá, deu o tom descolonial do evento. A artista, realizadora audiovisual e comunicadora começou colocando os pontos nos is, apontando a folclorização e a demonização dos encantados tupinambá, como a Kurupira e o Jurupari. “Ribeirinho? Caboclo Já ouviu falar? É como começaram a chamar o povo Tupinambá, declarado extinto”, disparou, chamando atenção para as mais de 28 aldeias Tupinambá existentes hoje na Amazônia. 

Moara Tupinambá na Conferência Anual Res Artis 2025 – Outras Primaveras: Florações do Sul Global [Foto: Divulgação]
Moara falou sobre levantes, retomadas, da necessidade de descolonização e desfolclorização de saberes indígenas, além de levantar pontos incômodos que poucos tem coragem de tocar, ao apontar conflitos e contradições do mundo da arte no Brasil. “No Norte o patrocinador cultural é do petróleo ou do minério e a Shell está patrocinando projetos indígenas no Brasil inteiro”. Para fechar quase duas horas de palestra, apontou a dificuldade indígena de compreender não só a cidade, mas o mundo da arte, com seu natural abismo entre as noções de coletividade e individualidade. Com a pauta do coletivo, Moara abriu os trabalhos para artistas, pesquisadores e profissionais da arte engajados com a mais generosa das instituições – a residência – trocarem figurinhas.

SOBRE COLABORAÇÃO

Gana, Taiwan, Haiti, Arábia Saudita, Argentina, Chile, Zimbábue, Quênia, México, Colômbia, República Dominicana, Porto Rico, Nigéria, Tunisia, Senegal, Vietnã, Malásia, Uganda, Peru, Filipinas e Brasil subiram ao palco do auditório principal e se distribuíram por salas de trabalho para compartilhar sucessos e questões urgentes das comunidades que estão sendo criadas mundo afora. Mas universalismo não exclui o Norte Global. Participaram também Reino Unido, Alemanha, Itália e Países Baixos, representada entre outros por Bruno Alves de Almeida, gestor da residência da Van Eyck Academie, de Maastricht, com quem troquei ideias no café da manhã anterior à abertura. Ele falaria na segunda-feira 22 sobre “residências artísticas como infraestruturas para o engajamento ecológico”. Eu teria adorado assistir, mas não pude voltar à Res Artis devido ao fechamento da revista. Foi então que decidi fazer este registro na forma de uma breve crônica. 

Nas preliminares do evento, na conversa com Bruno – que eu já conhecia de quando ele viveu em São Paulo, anos atrás –, concordamos a respeito da lacuna de residências voltadas à crítica e às escritas de arte, muito embora as residências literárias abundem. Comentei que um dos motivos que me traziam a estas Outras Primaveras: Florações do Sul Global é um projeto que estou acalentando, ainda em gestação, de celebrar os 15 anos da revista celeste realizando uma residência de crítica de arte. Para isso, é claro que precisamos de parceiros porque, pelo que pude confirmar nessa manhã de conferências, a residência é sobre colaboração. 

Mas isto eu já sabia desde quando fizemos uma edição inteira da revista seLecT dedicado ao tema “Residência Artística”, em 2019. E também nos últimos dois anos, em que realizamos quatro edições da Residência Editorial Arte Celeste, convidando um critico (ou escritor), um comunicador e um artista (ou coletivos) a engajarem-se na pesquisa temática trimestral da revista e a colaborar entre eles. Da invenção desse sistema como uma estratégia de sobrevivência dos trabalhos da revista (quando tudo conspira contra o trabalho critico, jornalístico e de formação de conhecimento no atual sistema global das artes), emergem belíssimos trabalhos de colaboração. Como o realizado entre a artista biarritzzz e o critico de arte João Victor Guimarães, Yemanjá Hackeada, nas formas de texto e filme

Completei o ciclo vendo a exposição 20 Anos de Residência – Contribuições para uma Coleção de Arte Contemporânea, no Museu de Arte Brasileira (MAB), onde pude relembrar a 1ª edição do programa de residência da FAAP, de 2006, em que participaram Marjetica Potrc, Alberto Baraya e Lara Almarcegui, artistas convidados da 27ª Bienal de São Paulo. Hospedados nos ateliês do Edifício Lutétia, no centro de São Paulo, eles tiveram o acolhimento necessário para elaborar obras comissionadas pela Bienal que teve curadoria geral de Lisette Lagnado. 

Na exposição, vislumbrei outro braço forte dessa profusa instituição que é a residência artística: formar coleções. Também me dei conta de que no ano que vem, em 2026, acontecem as celebrações dos 20 anos do programa de residência da FAAP – desde 1996 na Cité des Arts, em Paris, e no Lutétia, em São Paulo – e da 27ª Bienal de São Paulo – Como Viver Junto. Por coincidência, nessa mesma semana fui convidada pela Galeria Tato, juntamente ao Marcio Harum, a dar um depoimento para um grupo de amigos da galeria sobre minha memória da 27ª Bienal, 19 anos depois de ter integrado a equipe como coordenadora de produção dos Seminários Internacionais. Ao me recordar da criação da residência no Lutétia em uma ação colaborativa entre instituições tudo fez sentido. A metodologia circular se consolidou: é sobre viver junto.