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Vigília com Mc Carol (2021), de Panmela Castro [Foto: Edouard Fraipont/Cortesia Galeria Luisa Strina]
Postado em 08/03/2023 - 8:09
Talu das minas: O estrondo Panmela Castro
Com exposição panorâmica de sua trajetória prevista para março de 2024 no Museu de Arte do Rio e livro recém-lançado para compartilhar conhecimento sobre arte, Panmela Castro dá aula sobre ser mulher no Brasil

Em uma terça-feira chuvosa de fevereiro, diante de uma plateia quase exclusivamente de mulheres, na Livraria Megafauna, no Centro de São Paulo, Maybel Sulamita, coordenadora de comunicação da Rede Nami, fez as apresentações das outras três integrantes da mesa de lançamento do livro Hackeando o Poder – Táticas de Guerrilha para Artistas do Sul Global. Panmela Castro é sobrevivente de violência doméstica, artista, ativista e fundadora da Nami, anunciou. Vulcanica Pokaropa foi apresentada como artista trans, doutoranda em artes pela Unesp e autora de um dos ensaios do livro; e Carollina Lauriano, como curadora independente, responsável pela curadoria de obras reunidas na publicação. As três palestrantes falaram sobre práticas coletivas, dissidências e decolonialidade em suas apresentações de Hackeando o Poder, que é um manual acessível, organizado pela Rede Nami e publicado pela Editora Cobogó, que ensina às jovens como se profissionalizar na arte. “O mais importante não é a arte, a carreira, o dinheiro, é o avanço de todes por meio do conhecimento como uma tecnologia a ser compartilhada”, resumiu Panmela Castro. 

Autora de uma obra testemunhal e feminista, Castro explora diferentes linguagens, com predomínio de pintura, performance e fotografia. Duas séries anteriores à sua participação nas mostras Enciclopédia Negra (2021) e Histórias Brasileiras (2022), que marcam a definitiva e irreversível institucionalização da obra da artista, já sintetizavam a maturidade de seu trabalho: #RetratosRelatos (2019/20) e Vigília (2020/21). Na primeira, a atuação à frente da ONG voltada a mulheres vítimas de violência doméstica, a Rede Nami, e a experiência com a pintura resultam em um conjunto de retratos mostrados em forma de dípticos, ao lado dos relatos de abuso e outros temas do universo das mulheres enviados pelas retratadas à artista. Nenhum dos registros tem maior importância que o outro, ao contrário, os pares pintura/texto desvelam o processo catártico de tornar públicas as agressões que muitas mulheres sofrem caladas. Na segunda série, realizada depois do período mais rígido da pandemia, em 2020, amigos de Panmela posam para retratos no ateliê da artista ao longo de uma noite (daí o título, Vigília) em que as conversas, a música, a dança e tudo o mais que fez parte dessa experiência compartilhada encontram-se plasmados sobre a tela.

Em 2021, Panmela Castro entrou para o time seleto da Galeria Luisa Strina, onde realizou a primeira individual no mesmo ano, feito raro, considerando a agenda concorrida de uma galeria blue chip. Ostentar É Estar Viva, com curadoria de Daniela Labra, homenageou cinco mulheres do círculo íntimo da artista, por meio de retratos e outros elementos narrativos, como fotos, printscreens de redes sociais, relatos e arte de base textual (text-based art]) Dessa última tipologia é a peça que deu título à exposição: um espelho com moldura de obra de arte, sobre o qual Panmela pichou, com spray preto, “Ostentar é estar viva”. Na individual na GLS, a obra foi colocada no final do corredor que liga a sala principal à segunda sala expositiva e, mesmo exposta nesse local de passagem, foi o trabalho mais instagramado da mostra. No período de 26 de novembro de 2021 a 15 de janeiro de 2022, perdi a conta de quantxs conhecides vi refletidos naquele espelho passando no meu feed. Brancos, pretos, homens, mulheres, jovens e velhos, todes pareciam se identificar com a máxima de Panmela Castro, que me soa, a bem da verdade, uma afirmação geolocalizada, relacionada a ser uma mulher negra no Brasil. Mas por acaso selfie tem falsa consciência?

"Brancos, pretos, homens, mulheres, jovens e velhos, todes pareciam se identificar com a máxima de Panmela Castro"

GRAFITE, ARTE E ATIVISMO
Uma hora antes do evento de lançamento de Hackeando o Poder, na Megafauna, Panmela Castro conversou com seLecT_ceLesTe sobre sua trajetória como artista, ativista e empreendedora, papéis sociais que ela reúne magistralmente na concepção desse manual para jovens artistas, que reúne 58 colaboradores, entre autoras, artistas convidadas para participar com obras, e equipe envolvida na criação desse marco na arte brasileira do século 21. A entrevista começou pelo nome e missão da ONG que Panmela fundou em 2010: “NAMI significa ‘mina” na língua TTK”, conta, referindo-se à linguagem dos grafiteiros das ruas do Catete, o TTK, que dá nome ao “idioma” inventado nos anos 1960 para burlar a repressão da ditadura. “O trabalho da Rede Nami nunca foi algo que planejei. Fui vítima de violência doméstica, e comecei a fazer o trabalho para promover a Lei Maria da Penha, porque, na época em que aconteceu comigo, não existia a lei, então ninguém foi responsabilizado. Criei uma metodologia para usar o grafite como forma de fazer chegar às pessoas a informação sobre a lei e isso foi considerado bastante revolucionário na época. Acabei ganhando muitos prêmios internacionais, então, com toda a visibilidade que o projeto recebeu, acessei financiamentos e tive muita habilidade de trazer as pessoas pra junto. Resolvi formar a Rede Nami e trabalhar formalmente com isso em vez de ser só um grupo de grafiteiras”, relembra Castro.

A instituição, formalizada em 2010, começa, portanto, nas oficinas de grafite organizadas por Panmela no Rio de Janeiro para difundir a Lei Maria da Penha entre mulheres mais vulneráveis à violência doméstica. “Em um determinado momento, eu simplesmente não tinha grafiteiras o suficiente para fazer as oficinas. Então comecei a fazer oficinas para formar novas grafiteiras. E é isso, aí depois você tem aquele monte de grafiteiras, mas as meninas precisavam trabalhar em outras coisas, porque o grafite não era uma profissão formal de que elas poderiam viver. Então, você vai profissionalizando, até que deu no Hackeando o Poder, resultado desses anos acumulando experiência de fomentar essa base para as mulheres trabalharem com arte.” Da época de pichação vêm também as frases que ela usa em algumas de suas obras, caso de Ostentar É Estar Viva (2021): “A gente ficava pensando nas frases que ia botar juntamente com a pichação pra chamar atenção na rua, que era o estrondo”.

Utilizar o grafite como dispositivo para dar visibilidade a uma causa dá ensejo para tomar a arte como plataforma de luta, que Panmela desenvolve na sua trajetória mais institucional, poderíamos pensar. “Na verdade, eu já era artista. Cresci sendo designada a artista da casa, desde pequena. Eu sempre trabalhei com arte, com 17 anos eu já dava aula, o meu primeiro trabalho minha mãe vendeu quando eu tinha 12 anos. Participava das exposições do bairro, fiz (a faculdade de) Belas Artes, só que o grafite acabou dando muita visibilidade para o meu trabalho, principalmente o ativismo, que me deu uma visibilidade internacional. Meu nome se projetou muito, mas por outro lado eu não pude me dedicar tanto ao trabalho autoral como artista, e só agora, depois que consegui estruturar a Rede Nami para seguir o trabalho com a equipe, sem necessidade de estar ali o dia todo, que pude pensar mais na carreira como artista”, responde ela, pondo abaixo a hipótese levantada.

Ostentar É Estar Viva (2021), de Panmela Castro

TRÊS CICLOS
Em 2014, depois de outro caso de violência de gênero, dessa vez dentro do universo do grafite, em um evento da prefeitura do Rio de Janeiro, Panmela Castro fez um plano de ação de cinco anos para expandir o trabalho para além do grafite, focando na carreira institucional, que relata no primeiro capítulo de Hackeando o Poder. O estudo teve apoio de um fellowship de uma fundação europeia e foi desenvolvido juntamente com um consultor.

Capa de Hackeando o Poder [Foto: Divulgação]
A artista divide em três ciclos o seu plano de carreira. “O primeiro ciclo foi fazer a ONG, estruturar e fazer ela funcionar. O segundo foi fazer a mesma coisa para consolidar minha carreira”, explica. O projeto de institucionalização tinha como meta conquistar a legitimação no circuito dos museus e das galerias. No Brasil?, pergunto, já que ela é conhecida mundialmente pelo ativismo em defesa das mulheres vítimas de violência doméstica, e como uma das grafiteiras mais relevantes dos anos 2000. “No Brasil eu tinha visibilidade, já tinha ido no Fantástico, meu trabalho repercutia muito na mídia. Mas percebi que todo o legado que tinha estruturado ia ser apagado justamente porque não tinha a inserção nos museus. Por isso me preocupei também com a carreira institucional, e também com a independência financeira. Porque, hoje, meu plano, que seria o terceiro ciclo, agora que já estruturei a minha carreira e a gente já lançou várias outras meninas (artistas como Priscila Rooxo, cria da Nami), é criar um fundo. Hoje, minhas obras estão valendo 100 mil reais, nessa faixa. Então, a ideia é fazer um fundo daqui até a minha morte, que espero não acontecer antes de o cometa Halley passar de novo, mas criar um fundo que mantenha a organização para continuar lidando com os problemas futuros.”

"Clássico é o que é aceito, é o padrão, apesar de, sendo quem sou, nunca vou ser o padrão. Porém, é uma forma de se sentir aceita, de transformar isso num padrão, quem eu sou e quem são esses meus amigos retratados"

Em 2024, o Museu de Arte do Rio vai fazer uma exposição de Panmela Castro, com curadoria assinada por Marcelo Campos e Amanda Bonan, que são curadores do museu, e por Pablo León de la Barra, curador do Guggenheim. “É engraçado falar de retrospectiva, porque eu tenho só 40 anos, mas a exposição apresenta um pouco dessa história”, diverte-se. Pergunto se pode ser considerada uma celebração dos dez anos militando na arte contemporânea. “Acho que dez anos a partir do momento em que decidi ir para além do grafite, entrar oficialmente nesse circuito da arte, vamos dizer, com esse A maior, como se fosse mais importante do que as demais coisas, que a gente sabe que não é, mas as pessoas tratam como se fosse.”

Dez anos é um tempo breve quando se observa o alcance que sua pesquisa conquistou, com obras em acervos como os da Pinacoteca de São Paulo, MAR e Masp. Mas não é diferente da trajetória meteórica no grafite, nem dos projetos que Panmela inventou desde criança: “Sempre tive essa coisa empreendedora em mim. Quando era pequena, criei o Clube das Meninas na escola, no Segundo Grau eu fiz um jornal, que foi perseguido, censurado, porque, afinal, não se podia simplesmente fazer um jornal e distribuir suas ideias pros alunos, né? Na pichação, eu fiz um festival, o Xarpi Rap Festival, que tinha votação, melhores do ano, então eu sempre inventei coisas, tanto que com 16 anos comecei a trabalhar como professora de artes. Apresentava o projeto de curso extracurricular em escolas particulares e elas topavam”.

A propósito do xarpi (pixar), voltemos ao TTK e à maneira muito particular como Panmela defende as suas crias. Pergunto se a predileção pelos retratos tem relação com a luta pelo empoderamento de mulheres pretas. Mais uma vez, levo uma invertida: “Eu tenho trabalhado com os temas clássicos, né? Eu tenho feito retrato, mas tem a série Saudades, que são obras de paisagens, de memória, de lugares de afeto, de flores. Esse lugar do clássico ou de busca pelo clássico é a ideia do ser aceita. Clássico é o que é aceito, é o padrão, apesar de, sendo quem sou, nunca vou ser o padrão. Porém, é uma forma de se sentir aceita, de transformar isso num padrão, quem eu sou e quem são esses meus amigos retratados, que não são necessariamente pessoas negras, mas são pessoas que convivem comigo e compartilham dessas ideias”.

Fico me perguntando se a escolha pela talu (luta) das minas, que é o fio condutor de toda a trajetória profissional da artista, seria ainda a sua opção de vida, caso não tivesse uma história pessoal atrelada à violência doméstica. “A violência contra a mulher é um dos maiores problemas da sociedade, então a dedicação a esse tema acaba resolvendo vários outros que estão interligados, sabe? Quando avança o combate à violência doméstica, avança a educação, o problema da insegurança alimentar. Como motivação pessoal, tem muito mais que essa questão da violência, eu até costumo dizer que a minha força motriz vem dessa busca pelo afeto, porque acredito que essa busca por ser aceita, por estar nos espaços – como propõe o livro, de essas outras pessoas estarem dentro dos museus, dos espaços de poder, dentro da política, lugares que não ocupavam antes –, essa busca por afeto e aceitação é o momento em que acontece a violência, que é quando você é rejeitada, você é maltratada. Então, acho que a violência e essa ideia do amor, do afeto, do ser aceita, estão muito próximas.”

Panmela Castro comenta ainda que o trabalho da ONG pode até parecer uma coisa distante do trabalho que faz como artista, autoral, mas é a mesma coisa. “O trabalho da Rede Nami é só mais prático, a gente vê o resultado efetivo com as pessoas. Mas é como um trabalho de arte também, nessa busca pelo afeto, e tratando dessa violência que acontece nesse percurso. É lógico que no grupo social de que faço parte, das mulheres negras, existe uma violência bem específica e muito forte com essa busca da aceitação, mas a busca pelo afeto e o desprezo pela situação de violência faz parte da vida de todos os seres humanos, só muda a intensidade.”

Retrato de Maria Auxiliadora (2022), pintura de Castro que integrou a mostra Histórias Brasileiras, no Masp
Retrato de Bernardine Evaristo (2022), obra de Panmela Castro que participou da exposição Mulherio, na Danielian Galeria, no Rio de Janeiro