Com 15 de seus 40 anos de idade dedicados à arte, Jonathas de Andrade pode experimentar a condição de representante do Brasil na Bienal de Veneza. Para o público do mais importante evento de artes visuais do Ocidente, em sua 59ª edição, o artista ofereceu um conjunto de obras – videoinstalação, esculturas interativas de apelo sensual, fotografias –, dentre as quais se destacava uma série de expressões populares de sua vivência como nordestino; “dedo podre”, “fura-olho”, “costas quentes”, “entrar por um ouvido e sair pelo outro”, “com o coração saindo pela boca”, esta última utilizada para batizar o conjunto da exposição.
De trajetória relativamente recente, as obras de Jonathas já foram também apresentadas em outros âmbitos de prestígio internacional, como as bienais de São Paulo (2016 e 2010), Istambul (2019 e 2011), Lyon (2013), Sharjah, nos Emirados Árabes (2017 e 2011), e estão presentes em coleções de relevo mundial, como as do Centre Georges Pompidou, em Paris; Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York; Tate Modern, em Londres; e, para citar um exemplo mais próximo, a da Pinacoteca do Estado de São Paulo – o que, numa leitura matemática, o inscreve entre os verbetes mais relevantes da arte contemporânea do Brasil. Para além do fato de se apresentarem em suportes de múltiplas mídias e arredias a categorizações estanques, são trabalhos com a característica medular de problematizar o contemporâneo a partir de situações peculiares vividas ou observadas no Recife — a cidade para a qual o alagoano se mudou há justos 15 anos, com o intuito de se formar jornalista e onde, sem planejamento anterior, trocou a graduação e uma possível carreira nas redações pela arte.
Ainda que lançando mão de recursos do jornalismo, como a investigação diligente da realidade ao redor, o artista fez da cidade um campo fértil e controverso, onde, com olhos de etnógrafo guloso, captura contradições, pulsões de beleza e erotismo, desenvolvimento e ruínas, como metáfora da complexidade contemporânea em obras que borram os limites entre ficção e documento. Depois de rodar parte do mundo conhecido, Jonathas volta agora ao Recife – a cidade onde deliberadamente mora e de onde, sobretudo simbolicamente, jamais saiu. Em cartaz no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – o Mamam da Rua da Aurora, diante do Rio Capibaribe, decantada nos versos de poetas como Manuel Bandeira como um dos símbolos da urbe sobre os mangues – até 15/6, o artista tem pela primeira vez uma panorâmica de sua obra reunida na cidade onde seu metabolismo criativo funciona. Sob a curadoria de Moacir dos Anjos, a reunião de 29 obras recebe o nome de Na Cidade da Ressaca.
“Esta é a primeira exposição extensa de Jonathas de Andrade na cidade em que se fez artista”, sublinha Moacir dos Anjos. “Fica desde logo evidente, na mostra, o destaque que o Recife e outros territórios próximos possuem na produção de Jonathas. Não por serem espaços de paisagem física singular (embora também o sejam), mas por serem os lugares que formaram o entendimento que o artista possui da política, da história e do desejo pelo outro. Para o que muito importa o modo como os corpos, neste Recife ampliado, se afetam e constroem uns aos demais. Corpos suados pela luta, pelo sexo, pelo trabalho. Por frustrações e gozos. Pela invenção e pela ruína. Pela exploração desmedida e pelo romance desregulado. Por desigualdades fundantes e por insurreições que as minam o tempo todo. Corpos sujeitos a uma ressaca tropical que não cessa’’, diz o curador à seLecT_ceLesTe.
No museu está, por exemplo, o filme O Levante (2013), registro feito pelo artista da 1ª Corrida de Carroças do Centro do Recife. Em resposta ao decreto municipal que proibiria esse antigo tipo de transporte — a tração animal — nas ruas e avenidas da capital, o artista usou como estratégia publicar nos jornais da cidade a chamada para uma corrida de carroças a cavalo, alegando às autoridades competentes que o evento se tratava da gravação de um filme de ficção. Ali, ele problematiza o direito ao transporte e o uso do espaço urbano como uma questão de classe.
Em outra obra, Recenseamento Moral da Cidade do Recife (2008), Andrade se faz passar por um recenseador para pesquisar entre as camadas médias da cidade o que deveria ser o comportamento ideal de seus habitantes uns com os outros. O resultado é uma cartografia moral da cidade com as respostas colhidas em composição com fotografias dos lugares da capital e um antigo mapa do Recife. Em Ressaca Tropical (2009), o artista compõe outra espécie de mapa moral recifense ao articular as escrituras de um diário pessoal de um antigo morador da cidade nos anos 1970 para justapor imagens dessa paisagem social aos depoimentos subjetivos sobre sucesso, labuta, prazer e derrota. “Marcos afetivos de um lugar que não existe mais, mas que persiste como desejo de cidade’’, como observa o curador.
“A experiência da rua no Recife demanda muita presença de espírito e um certo comportamento de corpo disponível ao encontro e ao confronto. O perigo e o flerte são atmosferas que se fazem presentes o tempo todo nesse trânsito que tem a arquitetura, a ruína, os projetos falidos e os projetos em construção, que já nascem falidos”, diz Jonathas de Andrade nesta entrevista sobre a exposição que, neste momento, sintetiza o Recife como locus central de uma poética que, tão específica, consegue ter leituras de audiências tão díspares pelo mundo.

Nesta altura da sua trajetória, você poderia, confortavelmente, se fixar em qualquer cidade do País, ou mesmo fora dele, sem prejuízo profissional. Por que permanecer no Recife? A cidade segue sendo um catalisador da sua poética?
JONATHAS DE ANDRADE: Foi o Recife que me fez artista justamente por ser um território cheio de ambiguidades, de forças antagônicas. Cheio de camadas, de ruínas, de potência, mas também de mazelas, de esquecimentos. Essas contradições, de algum jeito, sintetizam muito do Nordeste, da força do Nordeste, e de coisas que eu experimentei desde a infância, que sempre me tocaram profundamente, mas que apenas aqui comecei a processar na forma de arte. O Recife me forjou artista por permitir, com suas contradições, que eu criasse obras e projetos que me jogavam na rua e faziam me aproximar desses personagens que são absolutamente hipnóticos e misteriosos. Embora as obras contem histórias na perspectiva desse Nordeste, eu sempre acreditei que elas tocam em dores e delícias que são absolutamente universais. E foi assim que os projetos me acompanharam nessa jornada de ir para o mundo, mas sempre voltar. Então, oxigenar minha conversa e levar essas histórias pelo mundo me trazem com muita força a este Recife que parece cada vez mais se desvelar e me apresentar novas inspirações.
Se não tivesse sido forjado no Recife, você, então, dificilmente teria se tornado o mesmo artista…
JA: Eu acho que não. O Recife me ofereceu tanto uma paisagem quanto um substrato humano muito particulares. Acho que me torno um artista quando sou um jovem adulto respondendo a questões que nasceram da minha infância e adolescência em Alagoas, as coisas que eu observava e não sabia desvendar, os sentimentos dentro de mim que me convocavam, mas que eu nem sequer sabia como ler ou como manifestar. Na arte, fui convocado a peitar uma série de contradições e o Recife foi esse canal ativador do curto-circuito, onde tive o ímpeto de me tornar artista.
Você já disse que sente falta da Maceió de mar azul clichê e uterina, mas o Recife, que tem, por exemplo, uma relação conflituosa com seu mar, o atrai mais. Poderia falar um pouco sobre como percebe esses conflitos na cidade e como eles estimulam seu metabolismo criativo?
JA: Sem dúvida, vindo de Alagoas, a experiência do mar no Recife é diferente. Mas até ele, com seus tubarões e sua beira-mar verticalizada, conta uma história de poderes e desastres. E toda a cidade reflete essas tensões. A arquitetura, a ruína colonial, a história das insurreições e revoltas parecem trazer um olho no olho do povo que cruza aqui — um misto de faísca, coragem, poder e desterro. A experiência da rua no Recife demanda muita presença de espírito e um certo comportamento de corpo disponível ao encontro e ao confronto. O perigo e o flerte são atmosferas que se fazem presentes o tempo todo nesse trânsito que tem a arquitetura, a ruína, os projetos falidos e os projetos em construção, que já nascem falidos. A ausência de ações públicas que vai arrastando mazelas históricas e fazendo essa população responder com resistência e cultura. Muitas vezes, uma resistência que está na presença do corpo na rua. Nos carroceiros, nos ambulantes, nas tantas identidades que cruzam essa espécie de metrópole nordestina mítica, onde, muito facilmente, eu encontro comportamentos de corpo e de gestos que me remetem a muitas pessoas que encontrei. Recife, portanto, tem uma poesia da potência e da exclusão para falar da experiência radical que é viver no Brasil nos dias de hoje.
Ainda que borrando limites entre ficção e documentação, sua obra tem um sotaque eminentemente sociológico. Traz referências e exemplos concretos da desmaterialização da cidade que mexem com a subjetividade coletiva de uma determinada classe média e alta, e mesmo com a de outros artistas, a exemplo de Kleber Mendonça Filho e seu cinema preocupado com dicotomia urbana. Você trata, em outro exemplo, da comoção gerada pela demolição de uma casa modernista da famosa Avenida Rosa e Silva. Alguma explicação própria para o fato de referências tão específicas chamarem atenção de públicos tão heterodoxos que prestigiam sua arte fora do Brasil?
JA: É muito legal você falar em sotaque, porque, de algum jeito, olhar para o modernismo brasileiro numa perspectiva tropical nordestina é uma das coisas que me colocaram em conversa com um olhar sobre o modernismo que ficou tão em voga nos anos em que comecei a ser artista. Era um olhar que trazia uma espécie de ar local, de sotaque, de maneira particular de ser, que é tão nordestino, brasileiro, sul-americano e que, no fim, é internacional. Como fazer um programa modernista responder a questões tão locais como o calor, o aproveitamento do vento, a umidade e os rasgos profundos das diferenças sociais que tanto marcam a nossa região? A casa [modernista] na Avenida Rosa e Silva, que observei na realização de alguns trabalhos, e mais fortemente em Nostalgia, um Sentimento de Classe [2012], ganha esse título justamente por isso. Não seria essa nostalgia de olhar para uma arquitetura bela e funcional, mas que é descartada pelo entendimento de cidade das elites imobiliárias? Não seria, no fim, uma nostalgia muito classe média e burguesa diante de problemas tão abissais nas ruas? Como é que a gente pode ainda ficar sensível a essas belezas e descasos, quando existem outros descasos mais humanamente graves? Esse olhar socioantropológico traz um flerte com a pretensão de dar conta de um assunto na totalidade, o que é absolutamente falho, mas oferece uma sensação de calma… Eu gosto de jogar com o público e com essa brincadeira de leitura. Ao mesmo tempo vira uma trapaça, porque a ficção se mistura com o documental.
Há conceitos muito interessantes e inovadores em obras suas, que poderiam, aliás, estar em teses de uma sociologia revigorante brasileira. Como você percebeu e percebe, por exemplo, essa “nostalgia como sentimento de classe”?
JA: Meu interesse e meu olhar sobre uma antropologia do Nordeste, uma identidade, uma tradição, foram se encaminhando para um jogo de provocação com essas categorias, que ocupavam um lugar de poder nas narrativas da história. Então, de algum jeito, mimetizar esses procedimentos, essas formas de ler o mundo, é um jeito de brincar e distorcer, quase de sabotar essas verdades, para poder recontar a história. A nostalgia que parece ser uma temperatura constante nesta cidade que é presente, passado e um futuro distópico já derretido, ela, em certa medida, parece ser uma experiência intelectualizada com pouca concretude política. Alguns anos depois, comecei a ser artista, as coisas ganharam uma urgência política que eu nunca tinha vivido. Então, tudo aquilo que era uma nostalgia blasé começou a virar urgência e reviravolta de pautas e de discursos identitários explosivos [aqui, o artista faz alusão, sobretudo, ao Ocupe Estelita].
Identidade, representação, pertencimento, exclusão, desigualdade, mutilação urbanística… O Recife é uma metáfora concreta das desigualdades e complexidades contemporâneas ocidentais ou a cidade tem um jeito peculiar de materializar perversidades?
JA: Acho que o Recife tem uma capacidade muito singular de concentrar contradições e, ao mesmo tempo, um leque de como conviver com elas muito perto uma da outra. A gente tem as elites que se beneficiam e, ao mesmo tempo, uma massa de gente que sofre com os resultados dessas mesmas más escolhas que geram consequências a uma grande maioria, e manifestações disso na paisagem, na arquitetura, nas identidades, na cultura, na educação e também nas manifestações belas dessas contradições. Por exemplo, o Carnaval como grande catarse anual que vira uma identidade tão forte neste lugar, as manifestações da música, do cinema, das artes visuais, das danças tradicionais e históricas que vêm de tantos povoados dos interiores. As tantas manifestações de transformadores da matéria, da madeira, da xilogravura, do barro…. O Recife consegue, de uma só vez, ser sertão e ser chuva. Tudo é muito aqui. Há o ataque de uma riqueza e o ataque da violência, que é também um contra-ataque à riqueza predadora. Há uma cidade com grandes carros e avenidas em linha reta e também uma cidade com carroceiros, cavalos e todo um jogo de corpo do interior que eu só via na minha infância, quando frequentava o interior alagoano. É uma cidade que consegue ser sertaneja e metrópole num só instante. Isso faz o Recife ser síntese ao mesmo tempo que verborrágica.
Gilberto Freyre e seu pensamento são citados, indiretamente, em obras como Museu do Homem do Nordeste e ABC da Cana. É ele o sociólogo que afirmou, há quase cem anos: “Sem açúcar não se entende o homem do Nordeste”. O açúcar ainda é ingrediente desse mosaico de contradições latente e exposto em suas obras?
JA: O açúcar é, sem dúvida, o ingrediente para olhar para uma história canavieira, canavial e escravocrata que está longe de ser digerida. Na obra ABC da Cana [2014], é chocante ver como o trabalho do corte da cana ainda tem relação direta com o analfabetismo e com a falta de oportunidades. Pensar em Gilberto Freyre é olhar também para o Museu do Homem do Nordeste em suas contradições e elogios a uma história colonial que precisa ser muito revista. Fotografar homens trabalhadores é lembrar de algum jeito quantos são invisibilizados em suas forças de trabalho que movem este território. Criar um duplo do Museu do Homem do Nordeste, idealizado por Gilberto Freyre, é de certa forma explicitar e constranger as contradições deste e apontar uma série de forças que revelam os infortúnios desta nossa história.
Depois de ver várias dessas obras em grandes instituições, por que a necessidade e importância de trazê-las reunidas para o Recife?
JA: A maioria dos meus projetos foi inspirada pelas forças e contradições que correm por aqui. Quando comecei a produzir, as instituições tinham orçamentos e fôlego para incentivar e canalizar uma produção jovem. Depois de alguns anos, isso parou de ser possível e meu trabalho voltou-se para fora daqui, ainda que continuasse respondendo a e se inspirando bastante nesse Recife. Para mim, nesses 15 anos de produção, sempre senti que era necessária a volta dessas obras para esse público, e fazer esse encontro virar uma vontade cada vez mais urgente. A curadoria de Moacir dos Anjos me ajuda a olhar em perspectiva e fazer algumas relações que me ajudam nessa conversa. Foi com Moacir que produzi o Ressaca Tropical e outros projetos num programa para jovens artistas na Fundação Joaquim Nabuco, o Trajetórias, em 2008, na primeira vez em que tive um trabalho exposto. Trazer as obras para o Recife agora é como voltar para esse começo.
