A Biennale de Veneza é a mais icônica das Bienais. Aberta em 1895, ela mantém a configuração do século 19 dividida em uma mostra coletiva e pavilhões com representações nacionais, com orçamentos e curadorias próprios alinhados à exibição central. Enquanto a grande coletiva reúne artistas nos prédios centrais do Giardini e Arsenale, as “embaixadas” artísticas mostram a arte local e o poder geopolítico. Elas se instalam temporariamente tanto nos espaços oficiais da Biennale como em salões arrendados pela cidade histórica. Em 2024, entre os debutantes estavam os pavilhões do Benin, no Arsenale, e de Porto Rico em locação externa, por exemplo. Ao mesmo tempo, extensa programação paralela complementa formas e conteúdos da grande exposição.
A 60ª edição da mostra Stranieri Ovunque/ Estrangeiros em Todo Lugar inaugurou em abril, com curadoria geral de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp desde 2014. No museu paulista, ele criou uma programação de mostras históricas, de artistas contemporâneos e modernos, além de coletivas monográficas dedicadas às histórias das artes fora das narrativas canônicas, com obras de indivíduos e coletividades representantes de minorias silenciadas. Em décadas de atuação nacional e internacional, Pedrosa desenvolveu uma pesquisa curatorial extensa que tanto embasa a proposta do museu paulista como a sua Biennale.

Em 2009, o curador organizou o 31º Panorama de Arte Brasileira do MAM-SP, intitulado Mamõyguara Opá Mamõ Pupé, tradução em tupi-guarani antigo para Estrangeiros em Todo Lugar. A frase-título, emprestada do coletivo franco- italiano Claire Fontaine, nomeava a célula anarquista e antirracista italiana Stranieri Ovunque, atuante nos anos 2000. A exposição paulista inverteu a ideia territorial do evento convidando artistas não brasileiros cujas obras atestariam a importância da cultura brasileira como referência. Quinze anos depois, o título ressurge na Biennale. A estratégia usada no Panorama brasileiro voltou entre as premissas que incidiram na escolha dos 331 artistas de maioria não europeia, de 87 países, na mostra de arte mais prestigiosa da Europa.
A expressão “estrangeiros em todo lugar” conecta-se a questões de migração e descolonização, e relaciona-se com a história de Veneza, fundada em 5 a.C. por refugiados de guerras romanas. A cidade tornou-se um próspero centro comercial do Mediterrâneo no século 9, sendo hoje um dos destinos mais visitados no mundo, recebendo hordas de turistas que triplicam a população local de 50 mil habitantes em um só dia. Olhando a situação veneziana como faceta do fenômeno de deslocamentos forçados de multidões pelo planeta, a 60ª Biennale foca em artistas expatriados, diaspóricos, à margem, exilados e refugiados, em especial migrantes entre o Sul e o Norte Globais.
OBSTÁCULOS DE TRADUÇÃO
Pedrosa, primeiro latino-americano a dirigir uma Biennale, assume e assimila obstáculos de tradução e interpretação comuns ao imigrante. No texto publicado em inglês e italiano, a curadoria destrincha os sentidos das palavras stranieri e estrangeiro, traduzindo-as por étranger, extraño, Unheimlich, uncanny até chegar em strange para desdobrar outros focos da mostra: o artista queer, que se move entre diferentes sexualidades e gêneros, e sofre perseguição; o outsider ou autodidata fora do sistema da arte, da sociedade e das instituições formais; e o artista indígena, tratado em sua própria terra como estrangeiro. Centenas de artistas expõe na Biennale pela primeira vez, sejam históricos ou contemporâneos, revelando nomes e produções artísticas desconhecidas do mundo hegemônico da arte até aqui.

A presença de brasileiros é grande. No Storico há Portinari, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Volpi e muitos outros. Já no Contemporaneo estão Joseca Yanomami, André Taniki Yanomami, Claudia Andujar, Dalton Paula, Manauara Clandestina, o coletivo Huni Kuni, com a megapintura indígena na fachada do prédio central da Biennale, e Jota Mombaça com um vídeo no Arquivo Desobediente, de Marco Scotini. A ítalo-brasileira Ana Maria Maiolino, premiada com um Leão de Ouro pela obra de vida, está nos dois núcleos.

Os trabalhos figurativos de artistas que em grande parte não conhecemos, posicionados nas paredes à moda dos salões de 1900, acompanhados por textos biográficos, lotam o ambiente de novidades, cujo volume de informações é difícil absorver. No Arsenale, o setor Italianos em Todo Lugar é dedicado a artistas de descendência italiana com obras expostas nos cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi, desenhados para o Masp em 1968. É uma referência imediata ao museu paulista e ao trabalho que hoje é feito ali. E, ainda, profissionais atuantes na instituição cercam a curadoria em Veneza dando a ver como as diretrizes do Masp se atrelam à proposta da 60ª Biennale.
ESCASSEZ DO DIGITAL
Embora o discurso curatorial seja disruptivo, Stranieri Ovunque é uma exposição de aspecto museístico, elegante, convencional e didático – em especial para o público europeu. O excesso de compartimentação em núcleos, subnúcleos, temas, motivos, hipóteses e explicações dá certa rigidez ao percurso da visita. A quantidade de pinturas figurativas e obras de parede surpreende em uma mostra cujos eixos também giram sobre a existência queer e outsider, desafiadoras da sociedade normativa no conteúdo e forma. Ainda assim há muitas obras bidimensionais extraordinárias, como as telas do peruano Rember Yahuarcani (1985), os têxteis de Cláudia Alarcón (1989) e Sillät, coletivo de artistas Wichí de Salta, Argentina, ou o extenso desenho sobre papel da suíça Aloïse Corbaz (1886-1964), reclusa por anos em uma clínica psiquiátrica.

Em 120 anos, apenas dois curadores do Sul Global dirigiram uma Biennale: o nigeriano Okwui Enwezor (1963-2019), em 2015, e Pedrosa. A lista de curadoras também é curta: a suíça Bice Curiger, 2011, a francesa Christine Marcel, 2017, e a italiana Cecilia Alemani, em 2022. A mostra de Alemani foi pioneira ao incluir mais de 200 artistas, de 58 países, sendo a maioria de mulheres e pessoas não bináries pela primeira vez no evento.
Stranieri Ovunque/Estrangeiros em Todo Lugar aspira marcar a história das exposições globais. A proposta de Pedrosa, pelo alardeado volume de artistas fora do cânone – mas não necessariamente de fora do mercado de commodities, lembra a coletiva Magiciens de la Terre, em Paris, 1989, curada por Jean-Hubert Martin. O francês reuniu 50 artistas ocidentais (dos EUA e da Europa) a 50 outros do “Terceiro Mundo”, autodidatas e tradicionais, para celebrar a arte do “Outro cultural”, e foi considerada a maior exposição de arte contemporânea global até então. O projeto, contudo, teve críticas pela abordagem paternalista e colonial que negligenciava identidades não europeias e suas manifestações artísticas como formas de resistência à hegemonia do Ocidente. O mesmo não ocorre na proposta da 60ª Biennale, que, ao contrário, reitera repetidamente o caráter de resistência e invenção da arte do Sul Global e dos artistas posicionados como dissidentes.
Uma Biennale que pretenda descontruir o cânone eurocêntrico e apontar para o outsider será naturalmente paradoxal e contraditória, uma vez que o evento legitima tudo e todos que ali estão. Não existe o lado de fora ou o “alternativo” em Veneza. E, nesse sentido, Estrangeiros em Todo Lugar é um marcador das tendências do sistema da arte internacional – compreendido por instituições, publicações, academias e o indissociável mercado. Após esta edição, tão incensada como não normativa no conceito, espera-se que não demore mais um século até haver uma mulher não europeia ou branca, com visão crítica e poder para revolucionar a Biennale dentro dos limites impostos pela sua clássica moldura.