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EKALITIO AGAIN (2024), de Keywa Henri. Foto: Nilton Fukuda
Postado em 11/06/2026 - 4:07
Uma pedagogia da “chegança”
Projeto curatorial de Frestas – Trienal das Artes é uma possibilidade de entender epistemologias e relações de vida sufocadas pela colonização vivida em diferentes países da América Latina

No ato de caminhar, pensamentos se alinham. O professor e artista Tadeu Kaingang é bastante direto quando diz que “da conexão entre o pé e a terra, o céu e o coração se encontram em um rito harmonioso e um ato sagrado, que equilibra e transforma”. Com esse pensamento, o artista e integrante do coletivo Kókir evoca a presença indígena em diferentes setores da sociedade brasileira, inclusive na arte contemporânea. 

Nos últimos dez anos, vivemos uma ebulição dessa presença. Percebe-se cada vez mais movimentos de contranarrativas que propõem revisões históricas, erguidos a partir da articulação com diversos grupos em todo o mundo, considerados minoritários e historicamente marginalizados. No Brasil, essa intervenção sobre as narrativas oficiais tem se dado especialmente no campo da educação. Algumas editoras têm revisado conteúdos de livros didáticos, trazendo a presença afro e indígena para o centro das discussões. Graças à Lei 11.645/08 (editada a partir da Lei 10.639/93), a história das culturas afro-brasileira, africana e indígena no Brasil se tornou obrigatória nas escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental e Ensino Médio. 

Tal obrigatoriedade ainda não alcançou a totalidade plena nas unidades escolares brasileiras, mas já tem movimentado o setor da educação, a partir da inserção de conteúdos didáticos e da entrada de personagens indígenas e negras na história oficial. Esse resultado direto das lutas dos movimentos, vejo como uma “pedagogia da chegança”. 

“Chegança” é uma brincadeira com a língua culta, formal, colonizadora: um desafio às normas gramaticais dos idiomas impostos na América Latina. A chegança é, sobretudo, um gesto político: uma inclinação para o popular, para o povo, para as massas. É o ato de chegada daqueles considerados incultos, incivilizados, imorais, impróprios, monstruosos, oriundos de muitas camadas antes ocultadas, empobrecidas pelas mãos do poder e hierarquização sócio-racial-cultural. A chegança é, para muitos artistas, uma possibilidade de expressar demandas individuais e coletivas por direitos e por espaço. E um ponto de partida para pensarmos as questões que envolvem a programação artística e cultural no Brasil.

A 4º Edição de Frestas – Trienal das Artes, intitulada Do caminho um rezo, que acontece no Sesc Sorocaba até agosto de 2026, nasce de um processo de pesquisa pautado na chegança de muitos corpos em movimento. Corpos quase sempre não normativos, caminhantes de muitas estradas, vivências e encruzilhadas: artistas com ascendências distintas, artistas com deficiências – artistas defs –, pertencentes a lutas de classe, não artistas. 

Quanto às cheganças indígenas, destaco que “a presença indígena é pedagógica”. Essa frase tem sido repetida em instituições, por programadores e produtores culturais em todo Brasil. Ela expressa como essas presenças impactam e denunciam o engessamento dos processos burocráticos e educativos, no que diz respeito à auto representação indígena. Se, antes, indígenas eram fonte de inspiração para projetos artísticos e literários, hoje pessoas e grupos indígenas reivindicam seu lugar, não como cota ou inclusão, mas como realizadores.

Mas essa mudança de paradigma é lenta e merece esforço cotidiano. A presença pedagógica precisa avançar para além do convite ao artista indígena a participar de exposições em instituições artísticas e culturais. É preciso praticar uma escuta ativa, adequada, composta por processos que valorizem e respeitem peculiaridades e histórias, quase sempre marcadas pela violência. Se assim podemos afirmar, as relações precisam ser quase holísticas, para possibilitar diálogos de maneira concreta e real. É preciso, antes de tudo, reconhecer aspectos da branquitude que faz a manutenção de seus lugares de poder.

Denis Moreira, Manjua. Foto: Nilton Fukuda
Denis Moreira, Manjua. Foto: Nilton Fukuda
Gustavo Caboco, Questão em suspenso. Foto: Nilton Fukuda

Terreno fértil

Sorocaba é um terreno fértil, pois detém em seu território inúmeras histórias e memórias soterradas por processos coloniais. Lutas operárias, apagamento de pessoas indígenas, processos manicomiais, exploração da mão de obra feminina na indústria têxtil, movimento negro organizado para dar fim ao racismo estrutural, entre outras tensões, compõem a tecitura histórica de Sorocaba e fundamentam pesquisas de artistas locais, que reivindicam que outras narrativas possam ocupar o espaço desse evento. 

Mesmo sendo Frestas um grande evento de artes realizado fora de um centro como a cidade de São Paulo, suas edições anteriores não agregaram um número considerável de artistas da própria região. Assim, Frestas 2026 possibilita uma revisão crítica da historiografia local, a fim de destacar todas as relações de poder ali estabelecidas, ampliando as noções de território, meio ambiente e políticas públicas, expandindo também as relações sobre quem está no espaço de arte. 

O grupo curatorial de Do caminho um rezo, formado por Naine Terena, Luciara Ribeiro e Khadyg Fares, propõe um olhar para dentro. Busca traçar trajetórias e caminhos múltiplos, se dão por gestos políticos e espirituais para a afirmação, a construção e a projeção dos artistas, coletivos e comunidades da América Latina. 

O professor Tadeu Kaingang, a historiadora e socióloga feminista Silvia Rivera Cusicanqui, e o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), são nossas fontes inspiradoras para desenhar este ambiente onde o ato de caminhar propõe rotas e cruzamentos, ou o que Nêgo Bispo chama de encruzilhada. Evocar o sentido de encruzilhada apresentado por Bispo, é aceitar sua provocação: “Quem nunca passou por uma encruzilhada não sabe escolher caminhos”. 

Muitos encontros foram propostos aos grupos, coletivos, artistas solo e comunidades, para que, se “entrecruzilhassem” e, a partir disso, escolhessem os caminhos artísticos a seguir na Trienal de Artes. Também houve a necessidade de nos despir de muitos dos cânones da arte contemporânea para aceitar fazeres artísticos baseados nos entendimentos das muitas comunidades e grupos convidados. Esta é uma possibilidade de entender outras epistemologias e relações de vida, outrora sufocadas pela colonização vivida na América Latina.

Nas palavras de Gislana Vale, consultora em acessibilidade cultural da exposição, doutoranda e mulher cega, essas presenças, em especial de artistas defs, “requerem o lugar de suas criatividades e não da inclusão”. Na atividade pública denominada Sendarias, realizada em fevereiro de 2026, Gislana afirmou que “incluir” não é mais um termo adequado: palavras são capturadas e utilizadas para oprimir e reduzir. 

Ela advoga pela presença, a autonomia e o pertencimento: “Existem muitas formas de ver. Não é apenas pelos olhos. É pelo corpo, pelo movimento, pelo escutar, pelo sentir”. Portanto, é sobre ver para além do que até agora foi visibilizado. Como faz a artista argentina Luciana Lamothe, com a instalação Fricciones, (2022), que investiga como materiais e corpos se transformam em contatos e fricções.

A encruzilhada como método curatorial

Cabe narrar algumas encruzilhadas construídas nesta edição. Os atos de colher e manter sementes vivas une o Caianas Coletivo Agroecoindígena do Povo Terena de Mato Grosso do Sul, a Cooperativa da Rede de Sementes, do Vale do Ribeira – SP, e o artista visual André Felipe Cardoso, do Quilombo Kalunga em Goiás. Habitantes do Cerrado, do Pantanal e da Mata Atlântica, eles compartilham o desejo de fertilizar solos e cultivar futuros possíveis. Este encontro compreende a valorização das memórias das sementes e das pessoas como decisórios para os próximos tempos da humanidade, pensando o processo de germinação e fertilização das margens do Rio Sorocaba. Uma luta por mais florestas, menos asfaltos.

Cada rio carrega uma memória (2026) entrecruza os caminhos do artista uruguaio Fernando Velázquez e da artista indígena Tiriri Rayo, que vive em uma comunidade na mata sul do estado de Pernambuco. A instalação propõe uma fabulação em torno do corpo indígena como ser encantado e conectado à natureza. Para isso, as tecnologias apoiam a dissolução das fronteiras entre corpo, água, território e encantamento. Com tecnologia digital, o projeto desenvolvido por Rayo e Velázquez evoca a fluidez do rio como meio e metáfora de um vínculo contínuo entre os seres originários e a natureza, numa cosmologia onde não há separação entre humano e não humano. 

Cada rio carrega uma memória (2026), de Fernando Velázquez e Tiriri Rayo. Foto: Nilton Fukuda

Para muitos grupos indígenas, os mundos animal, vegetal e dos seres humanos estão em constante relação, sendo os entes existentes nesses universos transitantes em diferentes esferas. Alguns animais são parentes dos humanos; rios e plantas tem um ‘espírito’ ou são ‘encantados’. 

Frestas caminha por esta encruzilhada entre as muitas maneiras de habitar o mundo a partir de diferentes cosmologias, que movimentam modos de vida e consequentemente a noção de arte, cultura e bem viver. Assim, alguns espaços como o rio Sorocaba e a Capela de João de Camargo são convidados a ‘atuar’ a partir das memórias constituídas por seus leitos e paredes. Douglas Emílio aprende com o Rio Sorocaba e Moíses Patrício dialoga com tudo aquilo que a Capela João de Camargo resguarda. 

Douglas Emílio vive em Votorantim, cidade próxima a Sorocaba. Seu trabalho é conduzido pela história do rio que invade a sua vida artística e cotidiana. As águas de uma grande enchente ocorrida em 1982 marcaram as paredes de sua casa lhe disseram que ele precisava aprender a ouvir o rio. Até hoje, os processos contínuos de devastação, assoreamento e represamento desse ‘ente’ vivente em Sorocaba, o rio e suas margens, seguem um ritmo desordenado. Douglas se colocou a ouvir o rio e entender que isso é urgente não só para ele no seu fazer artístico, mas para a sociedade de maneira geral. Ouvir o rio, é ouvir um futuro não tão distante. 

Dança um rio onde eu nasci (2026), de Douglas Emílio. Foto: Nilton Fukuda

A instalação Dança um rio onde eu nasci (2026), proposta por Douglas Emílio convoca a partilha: um jogo coreográfico onde o público é convidado a tocar e reorganizar miniaturas de personagens, que surgem das histórias que o artista aprende com o rio. Sim, ele conversa com o rio. Já Moisés Patrício, babalorixá, artista visual e arte-educador, com produções no campo da fotografia, escultura e performance, tem suas obras atravessadas pela espiritualidade, ancestralidade e coletividade e é instigado pela Capela Senhor do Bonfim João de Camargo a propor o reencontro com a ancestralidade negra. A capela foi construída em 1906 por João de Camargo, o Nhô João, que desde 1897 realizava práticas de cura, e atualmente é mantida por seus devotos.

EKALITIO AGAIN (2024), de Keywa Henri. Foto: Nilton Fukuda

Desaprender para restaurar o saber

Tadeu Kaingang nos propõe que adotemos a ideia de “desaprender para restaurar o saber”. É preciso desconstruir preconceitos para aprender a valorizar as múltiplas vozes e as identidades indígenas. Silvia Cusicanqui, por sua vez, não nos deixa esquecer o que envolve toda essa presença, nos provocando a pensar os museus como locais de centralização moderna, que funcionam como força desterritorializadora de significados dos fazeres indígenas. 

Ela aponta que é preciso pensar as geografias da colonização e seu impacto sobre povos que ocupavam territórios inimagináveis e que agora estão confinados em espaços museológicos. Esses lugares em que pinturas são penduradas no vazio. 

Silvia alerta para a expropriação, citando o barroco andino como espetáculo e mercadoria de alto valor simbólico e monetário em circuitos capitalistas de arte. Atenta também para a apropriação estatal dos bens comunitários, que são nutridos pelas fissuras dos estados republicanos, de sua privatização e dos herdeiros do princípio e da mecânica do colonialismo. As provocações de Silvia Cusicanqui estão presentes em muitas obras que foram especialmente produzidas pelos artistas para a exposição.  

‘Vocês nos veem?”, pergunta a multiartista e pessoa pesquisadora Keiwa Henri, do povo Kalin’a Tilewuyu (uma das sete nações indígenas da Guiana Francesa) na obra EKALITIO AGAIN (2024).  “Onde está a arte indígena no sistema da arte?”, pergunta Gustavo Caboco, artista do povo Wapixana na obra Questões em suspenso (2019-2025). Esses trabalhos evocam a reflexão sobre a exclusão, inclusão e naturalização da presença indígena nos projetos de arte contemporânea no Brasil e no mundo. 

Na instalação EKALITIO AGAIN, Keiwa propõe um encontro entre escrita, oralidade e a colonização linguística vivida pelo seu povo e os demais povos indígenas da América Latina. Faz isso através de frases escritas em kalinã, francês, inglês, português e guarani, em letreiros de LED, a partir dos quais o espectador é convidado a pensar sobre a invisibilidade das vozes autóctones e para além disso, a perda de muitas línguas indígenas ocasionadas pelo processo de colonização.

Já em Questões em suspenso (2019–2025), Gustavo Caboco reúne partes de obras que se utilizam da linguagem escrita para abordar a reparação histórica, a crise climática e a retomada de memórias interrompidas. 

Miguela Moura, artista visual, ilustradora e ativista Guarani, natural da fronteira Brasil-Paraguai, realiza a obra Tapa po’i (caminho estreito), a partir de seu encontro com a aldeia Guyra Pepo, localizada no distrito de Tapiti, São Paulo. A obra é composta por uma oficina de pintura de visualidades da cosmovisão dos cânticos guarani, documentada em vídeo pela equipe audiovisual do coletivo Koa Kuera. O material é totalmente falado no idioma deste povo, contribuindo para fortalecer a resistência linguística indígena no Brasil. 

Lambes (2019-2020), de Denilson Baniwa. Foto: Nilton Fukuda

Denilson Baniwa e Daiara Tukano são outros convidados que fortalecem a presença indígena. Baniwa com um conjunto de lambes produzido entre 2019 e 2020, em que tensiona e ressignifica produções visuais a partir de sua perspectiva indígena. Já Daiara apresenta a Mahá (arara), que faz parte do conjunto Dabucuri no Céu composto de quatro pinturas e quatro plumárias que representam pássaros importantes para o povo Tukano. Esta obra fala do sagrado, mas também do luto pelas perdas de tantos anciões guardiões dessas histórias.

Lucilene Wapixana, Roseane Cadete, também do povo indígena Wapiana e Flávia Aguilera, artista e pesquisadora de Sorocaba, se encontram para curar o fio, criando um imenso mapa têxtil para revelar os caminhos das lutas de resistência cultural, entrelaçadas pelos fios. A obra destaca a presença feminina na indústria têxtil de Sorocaba e todas as violências vividas por elas, assim como das mulheres indígenas desterritorializadas, massacradas e exploradas.

Por fim, temos a oportunidade de conhecer o Códice Boturini, ou a Tira de la Peregrinación, através de um fac-símile. Este manuscrito pictórico narra a história da migração dos mexicas (astecas de ascendência chichimeca) em busca da terra prometida. Produzido após a invasão espanhola, por volta de 1530 a 1541, por e para populações indígenas, combina imagens que expressam ideias abstratas e sinais que indicam sons ou palavras da língua falada.

Se toda caminhada leva para algum lugar, pode-se pensar que este Frestas atravessa muitas encruzilhadas. Como experiência, fica a ideia de que as cheganças são eficazes e, mais do que isso, necessárias para se projetar novas rotas mundiais de bem viver. 

 

 


Naine Terena vive e trabalha em Cuiabá, MT, Brasil. Mestre em artes, doutora em educação, graduada em Comunicação Social (UFMT). Mulher do povo Terena, é Pesquisadora, professora Universitária, curadora e artista educadora. 

Serviço:

Sesc Sorocaba (Rua Barão de Piratininga, 555, Jd. Faculdade, Sorocaba, SP)
Terça a sexta, 9h às 21h30
Sábados, domingos e feriados, 10h às 18h30
Até 16/8