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Fotografia da Parte IV Coleção Harald Schultz: Takuna (Maguta) - Árvore usada como matéria prima das máscaras de iniciação das meninas Takuna. Na imagem, homens removem a casca.
Postado em 23/03/2023 - 4:10
Ventos descoloniais
Lançamento hoje, às 19h, do livro Culturas Indígenas no Brasil e a Coleção Harald Schultz (Edições Sesc) amplia debate sobre a retomada simbólica dos acervos etnográficos
Da Redação

Boas novas chegam do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP por meio do livro Culturas Indígenas no Brasil e a Coleção Harald Schultz, que as Edições Sesc lançam hoje com bate-papo entre Marília Xavier Cury, uma das organizadoras da publicação, e dois autores indígenas participantes da obra, Gerolino José Cezar (Terena) e Dirce Jorge (Kaingang), no Sesc Ipiranga, às 19h.

Toda a publicação traz evidências do compromisso do MAE com a interlocução com os povos indígenas representados na coleção, de modo a reconstituir narrativas invisibilizadas na constituição do acervo. “As populações nativas americanas não apenas sobreviveram ao intenso processo ‘civilizatório’ de expansão do modo de vida ocidental no Brasil como, na atualidade, se posicionam por seus direitos de cidadania plena e integridade cultural e humanitária. Nesse sentido, as coleções etnográficas dos museus, como a coletada por Harald Schultz aqui compilada, assumem um novo papel, ainda mais importante que aquele, também nobre, imaginado pelos etnólogos do século passado. Agora, trata-se de revitalizar os laços das populações ameríndias atuais com seus ancestrais e suas ligações simbólicas com o mundo, a floresta, os rios e seus espíritos, recriando e atualizando a experiência existencial de sua própria natureza humana, sua imanência social e cultural, e seus direitos duradouros ao território e à participação na vida social brasileira”, escreve Paulo Antonio Dantas de Blasis, professor associado do MAE-USP, no prefácio.

As duas organizadoras do livro, a conservadora Ana Carolina Delgado Vieira e a professora e museóloga Marília Xavier Cury, vão além: “Esses objetos etnográficos carregam em si um ciclo vital que extrapola a materialidade, trazendo elementos que devem ser desbloqueados para que sua biografia possa elevar valores culturais e sociais. Eles não devem ser interpretados e apreciados apenas pelos gestores desse patrimônio material – pesquisadores, conservadores, documentalistas, museólogos, educadores etc. –, mas sim compartilhados especialmente com aqueles que os criaram, os povos indígenas. Isso dará condições para que a coleção ganhe outras narrativas além daquela elaborada pelo coletor ou pela instituição que a guarda”, escrevem na introdução.

A coletânea de artigos dedica-se a divulgar a história e as pesquisas que se desdobram da coleção Harald Schultz (1909-1966), fotógrafo e etnógrafo que se dedicou a registrar aspectos culturais de dezenas de povos indígenas e coletou mais de 7 mil artefatos. Considerado um dos precursores da antropologia visual, com a produção de filmes e fotografias que demonstravam o cotidiano da pesquisa de campo e a confecção de artefatos, o acervo que constituiu como funcionário do Museu Paulista, hoje Museu do Ipiranga, foi integrada em 1963 ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Culturas Indígenas no Brasil e a Coleção Harald Schultz é dividido em quatro partes, a primeira destaca a trajetória de Schultz como etnógrafo; a segunda reflete sobre como os museus podem implantar políticas que respeitem os direitos dos indígenas e contribuir para a inclusão e empoderamento desses povos; a terceira parte do livro dedica-se aos estudos relacionados a coleções depositadas em museus, incluindo artigos de pesquisadores Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena sobre esse tipo de acervo; e a última seção reúne imagens de doze grupos visitados por Schultz, assim como fotos dos objetos coletados.

Capa de Culturas Indígenas no Brasil e a Coleção Harald Schultz (Edições Sesc) [Foto: Divulgação]